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Sobre Fé, Razão e Graça



Assim como o apóstolo Paulo, creio piamente na justificação pela fé (Romanos 1.17). Não quero aqui fazer da fé, da razão e da Graça três pilares da Igreja, não. Pois a Igreja é composta por apenas um pilar, uma Pedra angular, que é Cristo. E é justamente em Cristo, - que é a única coluna -, que essa fé tem que ser embasada.


Não quero propor uma fé como doutrina de confissão positiva, adotada pelos neopentecostais. A fé que quero apresentar, não é outra se não a que o Evangelho nos oferece. Pois vejo que nesses últimos anos a "igreja" evangélica instituiu uma nova "visão", que usa a fé como elemento de barganha, anulando totalmente a Graça. Como diz João Alexandre; "estão ressuscitando a Lei e pisando na Graça, negociando com Deus".


A doutrina da confissão positiva ensina que devemos proferir com nossa boca aquilo que queremos trazer à existência. Pela fé, o que falamos deve se tornar realidade. Tal doutrina prega que o crente não só deve ter a saúde em perfeito estado, mas também deve usufruir de grandes riquezas materiais nessa terra. E os precursores de tal ensinamento chegam ao ponto de dizer que devemos exigir de Deus as melhores roupas, os melhores carros, o melhor de tudo, pois tudo isso seria um direito do crente. O triunfalismo é tão presente no meio dessa bagunça toda que muitos chegam a afirmar que nós, crentes, somos deuses e usufruímos da mesma natureza de Deus (Kenneth Hagin, Valnice Milhomens, Miguel Ângelo, Benny Hinn, Marilyn Hickey, R.R. Soares...).


É impressionante como essas pessoas criam princípios distorcendo a Bíblia a seu bel-prazer. Usam promessas destinadas à nação de Israel, transferindo-as para hoje como se fosse uma verdade absoluta. ( Malaquias 3.10-12) por exemplo, se tornou um texto que a "igreja" estelionatáriamente tomou pra si. Um verso que era puramente circunstancial, pois os dízimos sempre estiveram estabelecidos em Israel, para o sustento da ordem Levitica. Usam ocasiões de vitoria de personagens históricos como; Davi, Sansão, Josué, Moises, Elias, etc., e esquece-se de suas árduas lutas e momentos de fraquezas, medos, covardias e timidez.


Não, não é essa a fé que quero pra mim. Não desejo essa fé de poder, de determinismo, onde se diz; "eu declaro", "eu ordeno", "eu determino". Esse tipo de atitude não muda o caráter de ninguém, muito pelo contrário, nos torna mais arrogantes, presunçosos e distantes do Trono, ao ponto de nos tornarmos "caçadores de Deus".


Não, não é essa a fé que quero pra mim. Hoje olho pra traz e me arrependo de ter pregado usando "chavões bíblicos", frases de auto-ajuda e clichê evangélico. (Percebi que essas são as sementes lançadas na beira do cominho; o qual foi pisada, e as aves do céu a comeram. Outra caiu sobre a pedra; e, tendo crescido, secou por falta de umidade. Outra caiu no meio dos espinhos; e estes, ao crescerem com ela, a sufocaram) Pois muitas pessoas que ouvem essas mensagens, achando que o Evangelho é oba-oba, uma hora cai na realidade, e a não suportam.


Não, não é essa a fé que quero pra mim. Não agüento mais ver os teólogos da prosperidade se exaltando por causa de seus títulos e mega-"igrejas". Hoje, os lideres que admiro, são aqueles com a capacidade de falar honestamente de suas fraquezas e medos, assim como Jesus e seus discípulos. O sermão do monte em Mateus 5, 6, 7 deveria ser o arquétipo do verdadeiro cristão.

Não, não é essa a fé que quero pra mim. A fé que anseio é aquela de você me dar um tapa na face, e eu, ter a coragem e a dignidade de virar o outro lado. Pois a fé está totalmente implexas e entrelaçadas com a Graça, e ambas geram amor, humildade, mansidão, esperança, etc..

Quero uma fé semelhante a da mulher Cananéia que além de se submeter ao julgamento de Jesus, se humilhou ainda mais dizendo; Sim, Senhor, porém os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos (Mateus 15.27), e Jesus foi enfático em dizer; Ó mulher, grande é a tua fé!


Aspiro por uma fé semelhante a daquele centurião que, ao ter o seu servo doente, foi até Jesus procurar socorro (Mateus 8.5-10). A fé se encontra ali justamente na sua atitude de humilhação diante de Jesus. Ora, ele era um centurião, homem de grande autoridade (v.9), e mesmo assim ele diz; Senhor, não sou digno de que entres em minha casa (v. 8). Jesus se agraciou daquele homem romano ao ponto de dizer; Em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel achei fé como esta (v.10).

Não há dissociação entre fé, obras, Graça e Cristo. Tudo está conexo. Tudo é Graça, outorgada pelo Senhor, para que não haja presunção da nossa parte.

Razão

Aqui compartilho da mesma idéia de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino; a razão sempre será uma escrava da fé. Disse Agostinho: a fé busca, o entendimento encontra; por isso diz o profeta: Se não crerdes, não entendereis (Isaias 7.9). Ou seja, eu creio para compreender, e compreendo para (melhor) crer*.

Quando falo em razão, não estou me referindo aos racionalistas liberais da "igreja" moderna. O que me vem à mente é Romanos 12.1, onde diz que nosso culto tem quer racional. Ora, Deus me fez um ser racional e logo, crer também é pensar.


Também não proponho uma razão que seja capaz de estudar Deus, pois, crer nisso seria loucura. Para os gregos a razão era o espírito, portanto, tudo que daí procede já nasce fechado para os limites da razão. Assim a fé proposta pelo Evangelho, para eles era filosoficamente loucura. Pois, somente pela razão, é simplesmente impossível não ser loucura a nossa fé. A razão tem que existir, mas num ambiente de interrogação, questionamento e pesquisa diante da Palavra, e outras tantas vozes que existe por ai. E isso são ordens de Paulo (1Tessalonissences 5.21). Leia: Amando a Deus de todo entendimento, para você compreender melhor.


Graça

Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie (Efésios 2.8).

Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua Graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus (Romanos 3.23-24).

Mas onde abundou o pecado, superabundou a Graça (Romanos 5.20).
Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça (Romanos 6.14).

Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus (Romanos 8.1).


Essa é a Graça que apresento, a mesma que foi oferecida por Paulo há quase dois mil anos atrás. Ora, em Jesus, se há Graça não há Lei, não há fanatismo, não há presunção, não há barganha, não há hipocrisia, não há religiosidade, não há arrogância e muitos outros elementos proporcionados mediante a lei.


©2010 Lindiberg de Oliveira


Texto retirado do blog Fé, Razão e Graça

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